Sua chefe não é ‘morena’. O nome disso é Colorismo.

Colorismo é a ideia que possibilita que pessoas brancas votem no Obama, mas matem George Floyd. Que admirem Taís Araújo, mas ataquem Maju Coutinho. Que se relacionem afetivamente com a ‘morena’ – mas com a ‘pretinha’, nem pensar.

De forma menos simplista: colorismo é a paleta de graduação de tons de pele menos ou mais escuros, somada aos outros traços fisicamente visíveis (o famoso “fenótipo”) – como tipo de cabelo, espessura dos lábios, etc – e que determina, aos olhos de quem racializa, o “quão negra determinada pessoa é”. A proximidade maior ou menor de um indivíduo, por seus traços fenotípicos, ao que se considera normativamente a concepção importada da Europa – a raça branca – será critério de validação para uma série de experiências individuais e interpessoais, principalmente. “Você nem é tão negra assim”, frase ilustrativa que tenta sintetizar o conceito de colorismo traz, nela mesma, três profundas observações sobre quem a diz (ou pensa):

  1. A permissão, dada de si para si mesmo, de categorizar deliberada e discriminadamente um outro ser humano a partir do filtro de realidade da pessoa que emite a opinião. Podemos chamar de cara-de-pautismo, pra sermos mais didáticos. 
  2. A concepção de qualidade do que significa ser “tão negra assim”. Se esta classificação existe, na fala de quem diz, existem também significados, para além do fenótipo, atribuídos a esta concepção. A gente chama isso de racismo.
  3. Por fim, o elogio travestido de preconceito. Dizer para alguém que ela “não é tão negra assim” não apenas deslegitima a própria identidade racial da pessoa que escuta, afastando-a de um estereótipo negativo (aos olhos de quem diz) associado à “escala de negritude”, quanto busca aproximá-la do que é considerado a norma de valor positivo por quem emite a fala. E a isso, meus amigos, chamamos de Colorismo.

Diz o Instituto Geledés:

“O colorismo ou a pigmentocracia é a discriminação pela cor da pele e é muito comum em países que sofreram a colonização europeia e em países pós-escravocratas. De uma maneira simplificada, o termo quer dizer que, quanto mais pigmentada uma pessoa, mais exclusão e discriminação essa pessoa irá sofrer.”

Sobre colorismo e tolerância no ambiente de trabalho

Sendo uma das ramificações do racismo, nesse emaranhado de causas e consequências que se misturam quando olhamos com mais profundidade para as relações étnico-raciais, o colorismo tem como base de sustentação a ideia de tolerância. O Obama e a Taís Araújo, para além de suas evidentes virtudes, habilidades, dores, desejos, crenças, ocupações, salários e conquistas, são pessoas negras de pele clara. São, portanto, pessoas negras mais toleradas dentro de um sistema estruturado e dominado por um grupo étnico-racial que tem, em si próprio, a referência do que significa competência, beleza, gosto e valor – e replica, historicamente, esta referência em comportamentos institucionalizados (formal e informalmente).

Um dos dados mais reverberados em fóruns, seminários e treinamentos sobre letramento racial no ambiente corporativo (para além de tantas outras áreas, claro), é o fato de apenas 6,3% de pessoas negras ocuparem cargos de gerência nas 500 maiores empresas do Brasil. Acontece que, destes, 90% são dos chamados “pardos” – a classificação institucional dada pelo IBGE e usada nos nossos censos populacionais desde 1872, e que é definida, pelo mesmo instituto, como “pessoas com uma mistura de cores de pele, seja essa miscigenação mulata, cabocla, cafuza ou mestiça”. Em outras palavras, “pardos” e “pardas” são pessoas negras de pele clara, fruto de um processo de descendência miscigenada de distintos grupos étnico-raciais ao longo dos séculos, e que são identificadas por pessoas brancas como mais próximas a elas do que pessoas pretas – ou negros de pele escura. Sobre estas, aliás, menos de 1 em cada 100 compõe o quadro executivo das empresas brasileiras.

Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas, Instituto Ethos & BID, 2016

O que isto quer dizer é que, estatística e empiricamente, vivemos um sistema corporativo que determina que pessoas pretas são adequadas apenas para cargos de Aprendiz (12% do total, a maior porcentagem de representação de pessoas pretas dentre as hierarquias organizacionais) ou de empregos terceiros subvalorizados, como os seguranças e as faxineiras. 

Talvez você esteja achando um exagero tudo isso, questionando a própria validade dos dados, e refletindo sobre a presença real de pessoas negras nos seus círculos profissionais. Bem, te convido a elaborar dois pontos:

  1. Sua chefe ‘morena’, ‘parda’, ‘cor de jambo’ é negra. Seu amigo ‘moreno’ de cabelo crespo não evidente, simplesmente porque prefere raspá-lo, é negro. E estas pessoas também podem estar passando pelos seus próprios processos de elaboração e afirmação de sua autoidentidade racial, muitas vezes minimizado, abafado, coibido e deslegitimado pelo colorismo praticado por você.
  2. Estatisticamente, 7,5% dos brasileiros e brasileiras se declaram pretos e pretas. Isso quer dizer que, naquela reunião de videoconferência com 12 pessoas que você fez semana passada, no mínimo 1 delas deveria ser preta. Constantemente. Em toda reunião. Em todo círculo social. Porque não faz absolutamente nenhum sentido pessoas negras de pele escura, retintas, não ocuparem os mesmos espaços que você ocupa. Quer dizer… você já sabe o nome disso, né?

O ‘colorismo’ é mais uma ferramenta racista de garantia ou restrição de acessos à educação, segurança, renda, afetividade, expressões religiosas, políticas e, claro, ambiente corporativo. O que mais você tem feito por aí pra gente poder parar de falar disso, um dia?

Publicado por Luiz Gustavo Lo-Buono

Fundador da Pulsos, consultoria para equidade racial em empresas. LG é um homem cis negro e gay, mineiro (de alma e coração) e apaixonado por neurociências e comportamento.

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