Chamada para brancos sobre a branquitude

Se você me pedir pra relatar como é a rua onde moro, posso olhar rapidamente pela varanda e te dizer coisas como “há um cruzamento na esquina, formado por dois bares e um prédio de cor creme bem em frente à minha varanda, com muitos apartamentos com sacadas amplas super iluminadas pelo sol da manhã e famílias se exercitando”. 

E você se satisfará com isso. Talvez passe a contar por aí por anos a fio que a rua Jaguaribe é “super ‘família’ e muito iluminada”. Até que, por hipótese, você pergunte pra um dos casais fitness que estou observando e ele te relate: “há um cruzamento na esquina, formado por um estacionamento gigante muito movimentado e um prédio baixinho, azul, que não bate nenhum sol e que nunca tem ninguém lá, pois é um prédio de muitos moradores sozinhos que são médicos.”

Enquanto você optar por uma narrativa específica, ela se tornará a realidade. Se tornará “o que é”, e em pouco tempo se tornará “o que sempre foi”. E todo o resto é definido a partir desta narrativa – até o dia em que sua ficha cai e você se dá conta de “mas, espera aí… quem foi que disse isso, mesmo?”. 

A História mal contada da Branquitude

A branquitude é a narrativa. Sabe quando sua tia comenta, assistindo um programa de TV qualquer, que aquela dançarina é uma “negra linda”? Quando matérias online explicitam que aquele novo contratado da multinacional é o “CEO negro”? E aquelas ideias de “literatura negra”, “cinema negro” e “música negra” são propagadas por veículos de mídia e conversas de bar?

A negritude sempre foi racializada, ou seja, sempre foi o objeto central do processo de racialização (que você já sabe que, de biológico, não tem nada). Processo, esse, que permite o racismo existir (ou seja, o processo de discriminação compulsória, para ser simplista, de pessoas negras). 

E isso acontece porque a narrativa central do que é “ser humano” é tratada de forma equivalente a “ser branco”. Afinal, se a dançarina fosse uma mulher branca, sua tia apenas diria “que mulher linda“. Se o CEO fosse um homem branco, a matéria apenas citaria “o novo CEO“. E instituições culturais como literatura, cinema e música, quando não produzidas por pessoas negras, são apenas chamadas por seus seus substantivos “genéricos” literatura, cinema e música.

Muitos de nós aprendemos, lá na quinta série do ensino fundamental, que a escravidão e seus processos foram elementos-chave na construção da história da negritude no Brasil. Aprendemos sobre o sofrimento de escravos, a formação econômica do país a partir de lavouras e engenhos e aprendemos até a chamar de “África” qualquer coisa que se pareça com elementos rudimentares, pessoas pobres e, obviamente, negros escravos. 

O que não fomos ensinados é que essa mesma escravidão e seus processos são elementos-chave na construção da história da branquitude no Brasil. Não aprendemos sobre a formação de uma sociedade pautada em dominância de privilégios, da formação da classe média brasileira e nem que a tal “África” é, na verdade, o maior continente do planeta com países com nomes (Nigéria, Gana, Benin, Angola, Cabo Verde), culturas, origens e histórias particulares igual o nosso Brasil. Como você se definiria, primeiro: como sul-americana ou brasileira? Pois é.

Mais que isso: aprendemos que o recorte dado à origem de pessoas negras no Brasil é a partir da escravidão. Inclusive, denominamos nossos antepassados africanos (qualquer seja sua origem, pois até esta ausência de documentação da própria história é fruto do racismo em operação) de “escravos” – quando, na verdade, foram “escravizados”. A escravidão foi situacional. Nenhuma dessas pessoas nasceu escrava. Aliás, muitas delas nasceram príncipes e princesas, tornaram-se reis e rainhas de guetos, tribos e nações inteiras, produziam música, ritos, moda, arte e idiomas em sua totalidade. E dessa história, pouco se sabe. É a tal analogia do início deste artigo, da varanda aqui do centro de São Paulo: aprendemos a escutar e optar por uma visão única – a visão da narrativa da branquitude.

Inclusive, da mesma forma que a origem da história da negritude do Brasil é “naturalizada” a partir da escravidão, a origem da história da branquitude é “naturalizada” a partir de ideias como salvação, descobrimento, jesuítas generosos e ricos príncipes portugueses – mas, se a gente empurrar pra trás um pouquinho essa narrativa, a origem muda rapidamente para os papéis de exploradores, estupradores, torturadores, assassinos e genocidas.

E é neste ponto do artigo que eu sei que talvez você desista de seguir.

Porque… é ruim, né? Lembra que falei de quando “a ficha cai”? É ruim refletir e aprender que a narrativa da branquitude não apenas tem origens muito mal contadas, como segue sendo replicada pela imensa maioria da população brasileira até hoje. E segue sendo replicada não apenas porque é uma história confortável nela mesma – mas porque é uma das histórias que mantém vivo, bem… o racismo. Os privilégios. A dominância estrutural de um grupo sobre outro, que permite coisas tão banais no dia-a-dia como poder morar num bairro seguro sem risco de ir na padaria e levar um tiro ou participar de processos seletivos em empresas sem se preocupar se deveria raspar seu cabelo por completo pra ter a chance de passar neles.

Conceitos de Branquitude

Toda palavra terminada com o sufixo “-tude”, como concretude, finitude, quietude e, claro, negritude e branquitude, são substantivos abstratos que representam qualidade ou estado de algo. Ou seja, funcionam como palavras que determinam características gerais do substantivo de onde elas derivam (concreto – concretude; branco – branquitude), mas que, ainda assim, não devem ser compreendidas de forma simplista – pois não o são!

Por isso, aqui trago alguns dos elementos estruturais do conceito de branquitude apresentado por Frankenberg (2004) – e que você encontra mais na obra “Branquitude – Estudos sobre a Identidade Branca no Brasil”:

  1. A branquitude é um lugar de vantagem estrutural nas sociedades estruturadas na dominação racial.
  2. A branquitude é um ‘ponto de vista’, um lugar a partir do qual nos vemos e vemos os outros e as ordens nacionais e globais.
  3. Como lugar de privilégio, a branquitude não é absoluta, mas atravessada por uma gama de outros eixos de privilégio que não apagam nem tornam irrelevantes o privilégio racial, mas modulam ou modificam. 

Este excelente artigo da Diplomatique complementa com a seguinte reflexão final: 

O branco passa a existir com a ideia de que existem pessoas que não são brancas. Porém, a diferença não terminou na cor da pele, os próprios brancos trataram de desenvolver as diferenças que, por exemplo, se apresentaram no darwinismo social, em legislações segregacionistas e em movimentos supremacistas. É difícil para os brancos reconhecer que parte de sua identidade, história e memória está fundamentada em tantos males passados e que, não só persistem por diversos modos em nosso cotidiano, mas permitem os privilégios da branquitude.

E o que eu faço com isso?

Falamos muito sobre os tais privilégios da branquitude – e um dos menos evidentes no dia-a-dia é exatamente o privilégio de não perceber-se como responsável pelo racismo, suas consequências e seu extermínio. O racismo não é um problema de pessoas negras, apesar de serem elas as que experienciam seus objetivos. O racismo não foi construído por pessoas negras, apesar de elas estarem na linha de frente com os plurais “movimentos negros” para acabar com ele por uma questão de sobrevivência e humanidade próprios.

Portanto você, leitor/a branco/a, pode fazer a própria ficha cair para além deste artigo: pesquise, estude e lidere seu próprio aprendizado a respeito da branquitude que lhe pertence e gera tantas consequências (não apenas as que você se acostumou a gostar, mas muitas que foram não contadas a você para garantir o conforto de perceber-se como a “normalidade”).

Algumas dicas de reflexão aqui:

  1. Pacto narcísico da branquitude

A psicóloga Cida Bento cunhou este termo em 2002, que descreve um acordo não-verbal no qual brancos em cargos de poder asseguram entre si posições de privilégio – fenômeno presente desde entrevistas de emprego a políticas públicas, calcado no “confiar em seus iguais”. Sabe aquela reunião de gerentes e diretores que não tem nenhuma pessoa negra? Tá óbvio, né? 

  1. Meritocracia

“Saber essa história é sair de um discurso confortável, como o da meritocracia – que o meu status social é fruto [apenas] da minha capacidade e não de uma história social que me colocou nessa posição de superioridade”, explica o historiador Jonathan Raymundo. Aqui, uma explicação profunda e didática da Rita Von Hunty.

  1. Privilégio branco

Comece por este vídeo de uma dinâmica tão simples quanto reveladora. Isto já deveria ser o suficiente. Se não for, atravesse a rua, vai lá pra varanda ensolarada que eu só consigo ver daqui, e olhe pro lado oposto sem a perspectiva do “isso é assim” ou “sempre foi assim”. E reflita sobre esses exemplos cotidianos de privilégio branco (dá pra buscar mais um monte na internet):

  • Se eu desejar, consigo estar na companhia de pessoas da minha raça a maior parte do tempo. Aliás, nem nunca reparei que só tenho colegas brancos.
  • Posso fazer compras sozinha no supermercado, em qualquer supermercado, sabendo que não serei seguida ou assediada. Aliás, nunca fui e me parece estranho alguém ser.
  • Posso ver o Jornal Nacional falando sobre uma chacina na favela e culpar os políticos corruptos, mas amanhã acordar e fazer meu café sem absolutamente nenhum receio de uma bala perdida cruzar minha varanda.
  • Posso ligar a televisão e ver pessoas da minha raça amplamente representadas. Inclusive, às vezes acho um exagero esse negócio de representatividade.
  • Posso ter certeza que meus filhos receberão materiais curriculares que atestam a existência da raça deles. Só com coisas muito positivas, aliás.
  • Posso falar jargões em inglês na firma sem suar frio pelo receio de uma eventual piada ou risada sobre minha pronúncia ou mesmo não compreensão daquilo.
  • Posso me dar bem em uma situação desafiadora sem que digam que o crédito é da minha raça. Aliás, esse negócio de cotas só serve pra baixar o sarrafo da qualidade, né?
  • Se estou precisando de um médico, dentista ou advogado, posso facilmente lembrar de alguns nomes de amigos próximos pra me dar um conselho de graça pelo whatsapp. Muitas vezes, até uma consulta. 
  • Posso me sentir segura de que, quando eu pedir para falar com ‘o responsável’, vou encontrar uma pessoa da minha raça.
  • Se um guarda de trânsito ou um policial me pede que pare, eu paro bem tranquilo.
  • Posso frequentar lojas de shopping sem que me perguntem se eu trabalho ali.
  • Se meu dia, semana ou ano está indo mal, não preciso questionar se cada episódio negativo tem um subtexto racial.

De acordo com Bento (2009), uma das características marcantes da branquitude brasileira é que “há um silenciamento diante do assunto das desigualdades raciais e sociais. Silenciar é uma estratégia para proteger os privilégios em jogo.”

Chega de silêncio, né?

Publicado por Luiz Gustavo Lo-Buono

Fundador da Pulsos, consultoria para equidade racial em empresas. LG é um homem cis negro e gay, mineiro (de alma e coração) e apaixonado por neurociências e comportamento.

Um comentário em “Chamada para brancos sobre a branquitude

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