Vieses inconscientes e antirracismo

Talvez você já tenha escutado o termo “vieses inconscientes” (alguns o chamam de “vieses implícitos”), porque compreendê-los é parte fundamental num processo de quebra de estereótipos e preconceito. Além, claro, de ser parte fundamental pra compreender como implementar ações antirracistas. 

Sabe quando você tá meio na dúvida de qual série assistir e pede ajuda pra uma amiga na qual você confia muito? Daí essa amiga faz mil elogios pra uma série que você nem sabia que existia, elogios do tipo “é a melhor série do ano“, “devia ganhar o Emmy“, e por aí vai? E o que acontece é que você já começa a assistir aquela série achando o máximo, mesmo sem nem ter assistido tantos episódios assim ou criado uma opinião verdadeiramente própria. Já passou por isso? Esse é um exemplo comum na nossa vida em que a gente diz que está “enviesado”, ou seja, a opinião positiva de alguém que confiamos é suficiente pra criarmos um conceito sobre uma série a qual não temos praticamente nenhuma outra informação a respeito – e isso determina, inclusive, a nossa própria experiência de assistir aquela série.

Os vieses existem pra simplificar a forma como a gente processa informações. Simplificar nossos julgamentos, simplificar nossas tomadas de decisão, simplificar… a vida! 

Afinal, pensa comigo o quanto nossa vida se tornaria impossível se todo santo dia você precisasse raciocinar se gosta ou não gosta de ovo frito antes de almoçar, se precisasse se lembrar qual objeto colocar por cima da camisa quando está com frio e se precisasse criar fórmulas matemáticas pra decidir o quanto você “gosta mesmo” da sua mãe pra ir jantar com ela, afinal?

A grande maioria de pensamentos, julgamentos e tomadas de decisão que tomamos no nosso dia-a-dia são inconscientes, e direcionados por esses vieses.

Quais são os principais vieses inconscientes?

Há indícios de já terem sido documentados mais de 180 vieses inconscientes por distintas áreas do conhecimento, como psicologia social, neurociências e economia comportamental. Alguns dos que eu acho mais interessantes, pra te dar dois exemplos rápidos:

  • O Viés do Pessimismo, que faz a gente julgar que a probabilidade de resultados ruins seguirem sendo ruins, quando “a coisa tá ruim”, é maior. E não necessariamente isso é uma verdade.
  • O Viés do Enquadramento, que basicamente diz o quanto um determinado contexto apresentado pra gente influencia nossa forma de pensar. É por isso que a edição de reality shows faz a gente ter opiniões tão… enviesadas.
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No fim das contas, os vieses existem como um mecanismo do cérebro humano pra facilitar nossa vida no planeta. Pra simplificar nosso julgamento e tomada de decisão. O problema é que, justamente por isso, a gente pode errar – e erra – muito! Não dá sempre pra confiar apenas num processo automático inconsciente. Afinal, somos, sim, seres dotados de capacidade de raciocínio, de “parar pra pensar”, de avaliar, e não apenas seguir vivendo de forma automática, né?

E em que momento os vieses inconscientes se tornam prejudiciais? 

Vou fazer de novo a analogia com o universo de séries e filmes. Talvez você se lembre quando o Brasil “parou” na novela A Favorita, ao descobrir que a “doce e humilde” personagem da Patrícia Pillar era, na verdade, a vilã da história. 

Ou que a “bela e companheira” namorada do Daniel Kaluuya em Get Out! (Corra!) era… bem, não tão companheira assim (sem spoilers aqui!). 

Esses e tantos outros famosos “plot twists“, ou “reviravoltas nas histórias”, são exemplos de como criamos estereótipos o tempo inteiro sobre pessoas, baseados não apenas em marcadores sociais como gênero, orientação sexual, deficiência, classe, raça, etc, mas também baseados em referências anteriores que nós mesmos temos.

Estereótipos são crenças que associamos mentalmente a pessoas e grupos de pessoas, dando a elas características muitas vezes aleatórias só porque “acreditamos que é assim”, influenciados por nossos vieses. 

Algumas vezes, alguns estereótipos podem ser reforçadores positivos – eu, como bom mineiro, adoro e me reforço positivamente com o estereótipo de “hospitalidade” e “genteboísmo” associado aos mineiros, por exemplo 🙂

Os estereótipos são como uma categorização automática: mas para seres humanos. Quando você enxerga ou sente um “objeto de madeira com quatro pés e um encosto”, automaticamente entende que aquilo é uma cadeira e serve pra sentar – sem precisar parar e pensar todas as vezes que ver este objeto, identificá-lo e, então, lembrar seu nome e sua função. Você categoriza um objeto de madeira com quatro pés como “cadeira”, você categoriza um ser vivo cinza de quatro patas com uma tromba e duas orelhas como “elefante”, e por aí vai. E você também faz isso com pessoas. 

Este julgamento automático sobre pessoas te influencia a tomar diversas decisões: quem você quer beijar, quem você quer contratar pra trabalhar com você ou de quem você quer se afastar automaticamente ao caminhar numa calçada. Entendeu, né?

O problema, e você sabe disso, é que o mundo tá cheio de estereótipos negativos, que não reforçam nada positivamente nosso julgamento sobre pessoas e grupos de pessoas. Pelo contrário, nos enviesa a tomar decisões que não são necessariamente… corretas.

Ah! E um ponto super importante: você não precisa concordar com um estereótipo pra que ele influencie seu modo de pensar. Basta estar vivo ou viva pra receber a influência dos estereótipos que você, e o contexto em que você cresceu e vive atualmente, construiu ao longo da vida. Sabe aquele estereótipo de “casal branco perfeito das novelas românticas”, de todas as últimas décadas, como a única referência do que é ser um… casal perfeito? Pois é.

Ai, ai… e o que eu faço com isso?

Talvez você esteja se perguntando: se os vieses inconscientes influenciam meu julgamento, influenciam a construção de estereótipos, e que, mesmo que eu não concorde com eles, eu ainda assim sou influenciado – onde está a notícia boa nisso?!

A notícia boa nisso, meu amigo e minha amiga, é que você não é um golfinho, uma cabra ou um javali. Você é um ser humano, a espécie animal viva dotada de algo que só ela tem: raciocinar.

Afinal, se somos o produto do nosso ambiente, somos também os produtores dele. Para que você tenha “aprendido” que o exemplo de casal perfeito é o casal branco das novelas, bem… algum ser humano resolveu colocar aquele casal lá. Para que você automatize a ideia de que um “corpo de verão” é um corpo magro e sarado é porque, bem… alguns seres humanos estão criando esse tipo de propaganda publicitária há décadas. E para que você replique o estereótipo de que, por hipótese, pessoas brancas são mais competentes que pessoas negras… é que talvez você só esteja convivendo com gente branca em cargos que você considera de competência.

Pra combater o racismo, minimizar estereótipos e não fazer preconceito, a solução não é tão simples quanto dizer que “não concorda com eles“, que “não faz isso no seu dia-a-dia” ou, pior, simplesmente não falar sobre isso. 

É preciso agir intencionalmente, raciocinar em cima deste problema, com a habilidade de reflexão e pensamento que só você, meu querido ser humano, tem. 

Definitivamente, não use a ideia de que “viéses inconscientes são automáticos” para justificar o seu preconceito ou, em casos mais leves, a sua simples ausência de ação

E pra isso, claro, aqui estão algumas dicas:

  1. Autoconhecimento é tudo, né? Que tal dar a chance pra um teste externo avaliar você e te dar mais informações sobre seus vieses? Faça o Teste de Associação Implícita, o teste mais usado no planeta pra identificar vieses e preferências automáticas ligadas a estereótipos. Faça-o de cabeça aberta, absorva o resultado evitando já sair questionando. Vai ser útil pra você. 
  1. Observe as pessoas ao seu redor, no ambiente de trabalho, na sua família ou com amigos. Pode ser virtualmente, inclusive. Quantas pessoas negras estão presentes no seu círculo social? Quantas referências negras de pessoas reais, não personagens de séries e novelas, você tem na sua vida? Talvez esteja na hora de expandi-las, né?
  1. Falando em referências: o que você tem consumido? Tem assinado canais de streaming, seguido redes sociais, escutado músicas e lido livros de comunicadores, pensadores, influenciadores, pesquisadores e celebridades negras? Uma das formas mais eficazes de combater o estereótipo e se expor a exemplos contra-estereótipo. Se você ainda continua admirando, ouvindo, lendo e assistindo os mesmos atores, cantoras, empreendedores (hmmm…) e pensadores brancos, você só tem se ajudado a reforçar estereótipos que não são nem um pouco antirracistas.
  1. Por último: cuidado com sua fadiga mental. Isso mesmo! Vieses são mecanismos automáticos do cérebro humano que facilitam o julgamento e tomada de decisão. Portanto, se esse cérebro estiver cansado, você só está contribuindo ainda mais para os vieses aparecerem! Tem uma entrevista de emprego com candidates negres, vai fazer uma avaliação de performance de alguém negre na sua equipe ou dar uma sessão de mentoria? Garanta estar bem, sem distrações, sem pressão de tempo, sono ou fome. Ajude sua própria máquina mental.

Reduzir vieses inconscientes exige intenção, atenção e tempo

A parte boa é que você é capaz de fazer isso. 

Mas tem que querer 🙂

Publicado por Luiz Gustavo Lo-Buono

Fundador da Pulsos, consultoria para equidade racial em empresas. LG é um homem cis negro e gay, mineiro (de alma e coração) e apaixonado por neurociências e comportamento.

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