Como ser um aliado de verdade

“Diversidade é convidar para a festa, inclusão é chamar para dançar”.

Vou me inspirar nessa famosa e super replicada frase de Vernā Myers para adicionar a perspectiva sobre o quero falar nesse post:

“Se diversidade é convidar para a festa e inclusão é chamar para dançar, ser aliado é mudar totalmente de playlist.”

Mas, afinal, o que é “ser aliado/a”?

Como usualmente acontece na dinâmica corporativa, muitas ideias e palavras sofrem constantemente o fenômeno da perda parcial ou total de sentido devido ao seu alto grau de exposição e replicação acrítica num curto período de tempo, estimuladas por colegas verborrágicos e/ou apresentações de ppt sem nenhum contexto.

“Aliado/aliada” é uma dessas ideias. 

Pessoas passam a se autointitular “aliadas” e empresas passam a declarar a “importância de aliados” como se a compreensão básica da palavra em si, sem pensá-la dentro de um contexto específico, fosse o suficiente. Mais que isso: sem pensar o que significa, na prática, esse título tão reivindicado.

Das dezenas de definições disponíveis, gosto especialmente desta da Awaken, consultoria gringa especialista em treinamentos sobre liderança inclusiva (tradução livre):

“Ser aliado é adotar uma prática ativa e consistente de usar seu poder e privilégio para alcançar equidade, inclusão e justiça, enquanto se responsabiliza pelas necessidades das pessoas marginalizadas*.”

Awaken

*Traduzi literalmente para “pessoas marginalizadas”. Importante contextualizar a ideia de “marginalizadas” como pessoas que estão “à margem” dos acessos e oportunidades igualitárias historicamente direcionadas a determinados grupos. Eu costumo substituir pela expressão “pessoas de grupos sub-representados” (nos espaços, acessos e oportunidades).

Portanto, “ser um/a aliado/a” passa muito mais pelo aspecto da tomada de ação e responsabilidade, do que do discurso. Porque, senão, você corre o risco de se tornar um “aliado de fachada” (em inglês, o conceito de performance allyship).

Rachel Tomas, Lean In (www.leanin.org)

Como não ser um aliado de fachada?

Falar é importante. Postar é importante. Afinal, a ação começa com o discurso. 

Mas um “aliado de fachada” é alguém que permanece ali. E que pode permanecer por falta de conhecimento (“como dar o próximo passo?”) ou por pura escolha (“é mais confortável”). Exemplos de comportamentos que podem te tornar apenas um aliado de fachada:

  • Só o título já vale. Você se autointitula “aliado/a” porque acredita nas ideias de igualdade e equidade defendida por grupos subrepresentados, como pessoas negras. Mas tem dificuldade de dizer algo concreto que tenha feito, por conta própria, para contribuir com essas ideias.
  • Posto quando todo mundo está postando. Porque você até é aliada, mas não dá pra ficar falando disso toda hora, né? Fazer aquele story no mês de novembro é super importante – mas também é super confortável, já que seus colegas também estão postando, então ninguém vai te achar “a militante fora do tom”.
  • Você gosta de um pacto entre a branquitude. Você é aliado, mas naquela rodinha cheia de amigos brancos, quando surge algum comentário ou pauta sobre o tema, você se cala rapidinho porque, afinal, “melhor não entrar em polêmica, né?”. Aliás, se tiver um amigo negro ali, você logo torce pra ele falar algo e você apenas concordar veementemente pra mostrar o quanto você é aliado!
  • Quanto mais distante, melhor. Claro que você é uma aliada: afinal, todo mês você doa 50 reais para uma ONG que cuida de crianças no Quênia! Mas está há dois anos sem dar aumento pra sua faxineira preta (e acha um absurdo o quanto elas estão cobrando hoje em dia, né, que coisa!), sequer considera comprar roupinhas ou jantar em restaurantes que não sejam daqueles mesmos donos brancos e, claro, acha dificílimo contratar pessoas negras para a sua equipe (porque, afinal, você não tem culpa se o que precisa ser resolvido primeiro é a Educação Básica no país – aí, daqui a 40 anos, você se sentirá preparado para contratar)…

Para não ser um “aliado de fachada”, primeiro se pergunte de onde veio isso. Por que você se considera uma aliada? O que te torna uma aliada?

É claro que acreditar nas mesmas ideias é o primeiro passo – mas você acredita até que ponto? Se essas ideias começarem a mexer com seus próprios privilégios, você ainda será um aliado?

Pra ser aliado de verdade, deixe de ser

Não se vence uma luta sem aliados.

Mas precisamos ser críticos, se quisermos transformação: será que não tem muita gente usando o selo de “aliado” porque agora a palavra é bonita? Como se estivesse dizendo que “ser um aliado” já resolvesse o problema?

A Conceição Evaristo, grande pesquisadora e escritora brasileira, disse o seguinte, numa entrevista em 2020:

“Os brancos que se colocam como nossos aliados não fazem mais do que a obrigação porque a questão racial no Brasil não é para o negro resolver. Somos gratos pelo espaço acadêmico, pois ter aliados dentro da Academia é fundamental para os nossos estudos. As pessoas brancas, no entanto, devem estar cientes de suas responsabilidades e entender que não estão fazendo nenhum favor.” 

Portanto, pra ser um aliado de verdade, e não de fachada, você precisa começar questionando o próprio título. Por duas razões simples:

  1. Ao se definir como um “aliado”, você ganha uma permissão automática de se isentar da responsabilidade. Você concorda com a luta – mas ela não é sua.
  2. Não é sobre a palavra. E é claro que você pode se intitular “um aliado/uma aliada” – desde que, efetivamente, assuma a responsabilidade.

Este artigo da Fast Company traz algumas estratégias para você se tornar um aliado de verdade (aqui, traduzidas e adaptadas):

  • Saiba o que você não sabe e fique confortável com isso. É impossível saber tudo, e também não é tarefa das pessoas negras te educarem. Inclusive, porque todas as pautas ligadas ao racismo (conceitos, origens, efeitos, etc) tem a ver com a vida prática de todas as pessoas, inclusive você (se for uma pessoa branca).
  • Use seu privilégio, sem precisar ficar falando dele. Todo mundo já sabe que você é uma pessoa privilegiada. Pessoas de grupos sub-representados sabem disso há muitos séculos, sem necessidade sequer de haver uma palavra para isso. Então, ao invés de começar toda reunião de apresentação dizendo que “eu sei que sou uma mulher privilegiada”, comece a trazer pessoas negras para esta mesma reunião, garantir que nas próximas ela estará mais diversa e que essas pessoas passem a iniciar as discussões.
  • Advogue, mais que mentore. Mentorar um profissional negro é uma ótima iniciativa. E lembre-se que, normalmente, essas mentorias duram 60 minutos por mês. E o restante de suas horas? O que você tem feito por seu mentorado – e por outros profissionais negros que não são mentorados por você? Ser aliado é advogar pela causa em tempo integral, levantando discussões, cobrando posturas e dando visibilidade ao trabalho de pessoas negras. 
  • Não se silencie. É muito fácil se tornar um ativista de internet num nível aceitável de número de postagens de indignação. É muito mais difícil chamar a atenção de um colega por excluir pessoas de reuniões, fazer perguntas que são microagressões mal disfarçadas ou, até mesmo, agir explicitamente com preconceito por alguém. A única maneira de mudar algum comportamento preconceituoso inconsciente é apontá-lo. Lembre-se: o silêncio é cumplicidade. 

“Se diversidade é convidar para a festa e inclusão é chamar para dançar, ser aliado é mudar totalmente de playlist.”

Talvez você esteja ouvindo aquela música só porque todo mundo está ouvindo, ou talvez você só chame pra dançar quando é uma playlist que você está acostumado.

Quer deixar de ser um aliado de fachada?

Vá dançar a dança dos outros, arregace as mangas e comece você mesmo a produzir a festa.

Publicado por Luiz Gustavo Lo-Buono

Fundador da Pulsos, consultoria de DE&I. LG é um homem cis negro e gay, mineiro (de alma e coração) e apaixonado por neurociências e comportamento.

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