Racismo institucional: exemplos e estatísticas

Se você estudou em escolas ou faculdades com poucos ou nenhum colega negro, isso é um efeito do racismo institucional.

Se você vive num lugar em que a maioria dos juízes e desembargadores são pessoas não-negras, isso é um efeito do racismo institucional.

E se você trabalha num lugar em que a maioria de seus colegas e líderes são pessoas brancas, isso também é um efeito do racismo institucional.


O que é o racismo institucional?

As instituições de um país, como as universidades, o sistema judiciário e as empresas públicas ou privadas, são organizações coletivas que refletem a própria sociedade. Uma coisa influencia a outra. Se vivemos numa sociedade estruturada pelo racismo, nossas instituições irão replicar essa lógica – e, ao replicar essa lógica, as instituições seguem reforçando a estrutura racista da sociedade.

Assim, o racismo institucional é uma das “caras” do racismo em operação, mas no âmbito das instituições – como a empresa em que você trabalha. Como diz o professor Silvio Almeida, “o racismo não se resume a comportamentos individuais, mas é tratado como resultado do funcionamento das instituições, que passam a atuar em uma dinâmica que confere, ainda que indiretamente, desvantagens e privilégios com base na raça.

Maurício Pestana


Mas quais desvantagens e privilégios são esses?

Antes de te mostrarmos alguns dados, faça seu próprio exercício de observação. Pense sobre essas perguntas, ainda que de forma breve:

  • A diretoria da empresa em que você trabalha tem mais pessoas brancas ou negras?

  • A marca, produto ou serviço para o qual você trabalha se direciona ativa e constantemente à população negra?

  • Relações raciais e combate ao racismo são temas de conversas informais em almoços e reuniões, onde você trabalha?

  • As metas que envolvem pessoas, em sua empresa, sempre consideram a perspectiva racial?

  • As agências, consultorias, fornecedores e parceiros de sua empresa são dirigidas e compostas por pessoas negras, normalmente?

  • Se você é alguém que contrata pessoas: já considerou criar vagas exclusivas para pessoas negras, mas deu um passo pra trás refletindo “hmmm… melhor não…”?

  • Se você tem orgulho de dizer que sua empresa tem muitos colaboradores negros, já parou pra pensar em quais posições estas pessoas estão?

Para complementar a sua própria reflexão, separamos algumas pesquisas mais recentes sobre racismo institucional no mercado de trabalho e empresas brasileiras.

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Fonte 1; Fonte 2
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Como combater o racismo institucional na empresa ou local em que eu trabalho?

Quando penso nesta pergunta, me lembro daquela catarse coletiva em torno da redução do uso dos canudinhos de plástico. Você se lembra disso? Da noite para o dia, muitas pessoas passaram a acreditar que este gesto simples individual poderia ser suficiente (ou, ao menos, acreditar que seria impactante de forma significativamente relevante) para a redução de contaminação de plástico nos oceanos.

Bem, é claro que mudanças de hábito individuais têm impacto. 

Mas quando pensamos em sistemas complexos como a emissão e contaminação de resíduos plásticos nos oceanos do planeta e o racismo como estrutura fundadora de uma sociedade, nossas ações individuais e isoladas deveriam se direcionar, também, à cobrança e responsabilização das grandes instituições que são capazes de gerar um impacto significativamente relevante.

Na esfera pública, este poder está em seu voto (no mínimo) e na sua capacidade de mobilização em grupo.

E no lugar em que você trabalha, você pode:

  1. Começar a provocar mais vezes as conversas sobre relações raciais e combate ao racismo, em almoços com sua equipe ou pré-reuniões. Usar um caso que esteja bombando em redes sociais (todo dia tem algum), pode ser um bom gancho. Influencie a conversa com as reflexões críticas que você já aprendeu até aqui (você não precisa ser expert!).

  2. Perguntar para seu/sua chefe, ainda que como curiosidade, sobre a visão dele/dela a respeito desta pauta. Quem sabe exista algo ali não dito, e potencialmente favorável? Líderes influenciam o sistema.

  3. Em apresentações de resultados que envolvam metas de pessoas, acostume-se a levantar a mão para questionar sobre as métricas raciais. Não tem nada de errado nisso. Cobrar responsabilidade do RH a respeito disto é influenciar o sistema.

  4. Se você é um/a tomador/a de decisão, passe a incluir a pauta racial em todas as suas decisões (mesmo que, na prática, algumas não a envolvam). “Como eu poderia incluir a pauta racial nisto aqui, e não estou enxergando ainda?”

  5. Se você é um/a líder, e contrata pessoas, experimente criar vagas exclusivas para pessoas negras e indígenas.

  6. Se você é um/a líder, e tem equipes diversas com pessoas de diferentes raças, busque ler e aprender sobre liderança inclusiva. A mentalidade “somos todos iguais” não irá te ajudar a combater o racismo. Inclusão é muito maior do que apenas “ter” colaboradores negres em sua equipe: é ter a habilidade prática de empatizar, motivar e valorizar simbólica, psicológica e materialmente estas pessoas.

  7. Se você trabalha com agências, consultorias, parceiros e fornecedores externos, atualize já sua lista com empresas e prestadores de serviço de pessoas negras. E dos atuais parceiros majoritariamente brancos, dialogue com eles a respeito: como eles têm combatido o racismo em suas próprias empresas?

  8. Comece a não ter medo da “torta de climão”. O que não é dito, não é resolvido. Estamos em 2022! Levantar a mão, pontuar, perguntar e comentar práticas racistas (ou, ao menos, que não estejam contribuindo para o combate ao racismo) não te tornará um profissional questionável. Se você acredita nisso, aja mais vezes.

  9. Forme grupos. Se não for por meio dos “grupos de afinidade” oficiais da empresa, movimente grupos paralelos e informais. Talvez com pessoas de maior intimidade. Use estes grupos para desabafos e diálogos para pensar estratégias coletivas de influência ao sistema.

  10. E, se nada disso der certo, sempre há algo que nos esquecemos: avalie mudar de empresa. Nem sempre é fácil, nem sempre é trivial, mas não deveria não estar sequer considerado em suas possibilidades. Se você é um/a profissional com valores muito conectados à diversidade, ao combate à intolerância, ao combate ao racismo, e trabalha num lugar com poucas perspectivas de mudança em níveis institucionais, acredite mais em você! Há muitos “planos B” por aí 😉

Para combater o racismo, precisamos nomeá-lo.

Agora que você sabe mais sobre o racismo institucional, que suas ideias se transformem em ação! É o que te desejo.

Publicado por Luiz Gustavo Lo-Buono

Fundador da Pulsos, consultoria de DE&I. LG é um homem cis negro e gay, mineiro (de alma e coração) e apaixonado por neurociências e comportamento.

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